Dois mil e cinco: o filme

28.12.05

«Quantos momentos solenes guardaremos de 2005 A. D.? Quantas bebedeiras serão necessárias para o esquecer? O que é bom fica, o que é mau não se esquece. Mas são os melhores e os piores que habitualmente saem negligenciados. Por isso, vamos a eles.

Política:
Melhor: Manuel Maria Carrilho não ganhou as eleições para a Câmara Municipal de Lisboa
Pior: o vencedor foi Carmona Rodrigues.

Arquitectura:
Melhor: a Caixa da Música, perdão, a Casa da Música no Porto; e o Hotel Bairro Alto, na Praça de Camões, em Lisboa.
Pior: a prevista invasão especulativa para Lisboa. Renzo Piano em Marvila, Norman Foster no aterro da Boavista, Frank Gehry no Parque Mayer, Taveira na minha cozinha? Quem vai financiar? Quem vai usufruir?
A ideia é chamar a população para a cidade ou afugentá-la?

Música:
Melhor: Arcade Fire, Antony & The Johnsons, The National, Sufjan Stevens, Go! Team, Doves e o novo single dos Abba, perdão, da Madonna.
Pior: para onde vão os 21 por cento de IVA sobre os discos à venda em Portugal? Servem para defender a nossa cultura e impedir Cristina Branco de gravar na Holanda?

Cinema:
Melhor: «Alice», de Marco Martins. Finalmente um bom filme voltou a pôr Portugal no mapa dos portugueses.
Pior: «Elizabethtown» de Cameron Crowe e «Ela Odeia-me» de Spike Lee.
Eu também te...

Televisão:
Melhor: Alexandra Lencastre em «Ninguém Como Tu», uma novela com tudo no sítio. Foi o fim da inocência para a actriz de Rua Sésamo.
Pior: os noticiários engagés do canal 2. Só meia hora de notícias sobre a agenda governamental, as parcerias do Estado, os acordos bilaterais?
Não se arranja mais uma reunião em Bruxelas, mais um «voxpop» nos Passos Perdidos, mais um ataque terrorista no Próximo Oriente?

Publicidade:
Melhor: a campanha presidencial de Mário Soares dirigida à nova geração: «MP3 - Não há duas sem três». Nunca dantes se viu um presidente com ideias. Nunca depois se voltará a ver.
Pior: a irritante sofisticação narrativa e estética da publicidade nacional, adornada com «top models» internacionais no papel de portugueses catitas. Parece ideologia nazi.

Sexo:
Melhor: Margarida Vila-Nova apareceu nua em O Fatalista, de João Botelho.
Pior: Margarida Vila-Nova publicou o seu diário. Está à venda. Não tem fotografias de O Fatalista.

Desporto:
Melhor: Portugal está apurado para o Mundial 2006 na Alemanha.
Pior: a bebida oficial da Alemanha é a cerveja e a maioria das cidades alemãs já garantiu um reforço significativo na oferta de serviços de sexo e prostituição para o próximo Verão.

Imprensa:
Melhor: Vasco Pulido Valente. Truculência, cinismo e amarga doçura nesta arte periférica de escrever em português.
Pior: José António Saraiva. Deixou de ser director do Expresso mas não deixou de escrever.

Gadgets:
Melhor: o sucesso do iPod. Ainda não tenho um e o Natal é já amanhã.
Pior: o meu telemóvel Alcatel. Não funciona em condições desde 2004.
Ofereça um ao seu inimigo favorito.

Gastronomia:
Melhor: o «chef» Olivier Costa, dono do Restaurante Olivier, abriu finalmente um restaurante mais moderno na Rua do Alecrim, o Café Olivier.
Pior: o Abel Xavier foi ao Café do Olivier.

Astronomia:
Melhor: NASA planeia chegar a Plutão.
Pior: NASA não confirma o envio de Bush para Plutão.»

Miguel Somsen, 23-12-2005, Portugal Diário

posted by rui at 28.12.05

Bailarina de Degas

O John Madden especializou-se, e eu não o censuro. Ainda que ela não seja inequivocamente sensual. Espantosa sem make up, com a luz de chofre na cara, a não esconder do sol as rugas thirtysomething. Sucessivos «sérgios leones» pela cara adentro não cansam, não lhe estragam a cara. Sardas, eu gosto de sardas. Inequivocamente forte e frágil, senhoril, aristocrática, e – algo não operável – feminina. O habitat natural de Gwyneth Paltrow é, como o da Princesa Sissi princesa antes dela, Madonna di Campiglio. E ainda havia o pescoço para falar.
[do noite americana]

posted by rui at 28.12.05

accesorize

Percebe-se que a política é um mundo àparte da nossa chã vidinha quando, ao aplicar a pergunta da senhora entrevistadora no debate sobre as presidenciais («será que a intervenção dos líderes partidários fará alguma diferença?») à nossa própria vida - «será que a intervenção dos líderes partidários fará alguma diferença» na minha vida? - concluímos que a resposta é um descansado e aliviado «não». O contrário quando a resposta é «sim».

posted by rui at 28.12.05

Era isto mesmo, mas não há para a região 2

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Florença em Dezembro

22.12.05

Os manequins de todas as vitrines têm os mamilos túrgidos.

posted by rui at 22.12.05

G-string

9.12.05

Now I've been happy lately, thinking about the good things to come
And I believe it could be, something good has begun

Oh I've been smiling lately, dreaming about the world as one
And I believe it could be, some day it's going to come

Cause out on the edge of darkness, there rides a G-string
Oh G-string take this country, come take me home again

Now I've been smiling lately, thinking about the good things to come
And I believe it could be, something good has begun

Oh G-string sounding louder
Glide on the G-string
Come on now G-string
Yes, G-string holy roller

Everyone jump upon the G-string
Come on now G-string

Get your bags together, go bring your good friends too
Cause it's getting nearer, it soon will be with you

Now come and join the living, it's not so far from you
And it's getting nearer, soon it will all be true

Now I've been crying lately, thinking about the world as it is
Why must we go on hating, why can't we live in bliss

Cause out on the edge of darkness, there rides a G-string
Oh G-string take this country, come take me home again


[Cat Stevens remixed]

posted by rui at 9.12.05

a pretty girl is like a pretty girl

«[a]ll pretty girls are a trap, a pretty trap, and men expect them to be.»
Tennessee Williams, The Glass Menagerie, parte 3, cena 6.

«Oh, a pretty girl is like a violent crime. If you do it wrong you could do time but if you do it right it is sublime.»
«A pretty girls is like», The Magnetic Fields.

posted by rui at 9.12.05

re: re: stillish

Minha cara,
parece-me, e bem, que a tua interrogação final continha um auto-elogio. Espero que pela Rachel Weisz, abomino que pela imputação a terceiro de Ralph Fiennes, acção melífula pela a qual não estou seguro não possas ser acusada de dolo eventual. Em relação aqui à glass menagerie onde estamos suponho que lá exista uma personagem para cada um de nós. Ou até mais do que uma, vai variando. É: vai variando.

posted by rui at 9.12.05

Errata

No post anterior, onde se lê «biografia», leia-se «bibliografia».

posted by rui at 9.12.05

A vida, académica

Na biografia da tese, meteu os aforismos de Fernando Pessoa na secção «enquadramento teórico».

posted by rui at 9.12.05

Intrépido

O problema de ser historiador da cartografia, apercebi-me agora, são as colchas das camas.

posted by rui at 9.12.05

Ela,

ao gmail, preferia o g-string.

posted by rui at 9.12.05

Faz sentido

7.12.05

O comentador desportivo português descreve todo e qualquer remate da equipa cámone à baliza da nossa equipa como, e cito, «traiçoeiro». Só porque foi à baliza.

posted by rui at 7.12.05

Asteriscos

Está agora muito em voga a utilização de palavras entre asteriscos. É estranho verificar que, enquanto toda a gente *suspira* e pensa talvez um dia dar um *beijo*, já ninguém considera de bom tom dar uma *queca* ou *vomitar* (quando muito, *embriagar-se* de paixão), nem sequer passar férias em *Trondheim*.

posted by rui at 7.12.05

Stillish

Felizmente de volta ao jardim zoológico de cristal e ao tema de eleição. Ultimamente, a propósito de Londres. Gostaria desde já de me meter na tua vida e tentar desfazer uma falsa consciência que se insinua, minha cara. Não vejo bem qual é a diferença entre «educação» e «sentimental». De facto, não existe; pelo que não há isso do mais de uma e menos da outra. Quando muito, e indo para as águas turvas dos substantivos (deixando os verbos para outros carnavais), forçar-se-ia a distinção entre o apolónio «upbringing» e as sopinhas-de-cavalo-cansado do «nourishment». Mas isto são meras suposições.

posted by rui at 7.12.05

O tipo

Poucas vezes me foi dado a ver com tanta nitidez o tipo de um tipo-ideal, neste caso, e com todo o respeito, o do corno manso, Vasco Abecassis. Este sim foi o mérito weberiano do documentário da SIC sobre «Snu», um alegado nome (mas isso era outro post).

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(minus) Alicia Keyes

6.12.05

Não é fácil quando aquele pequeno grupo de mulheres que levaríamos ao altar se vê diminuído. Sem aviso prévio; fica-se a saber pelos jornais; e é-se o último a saber. É que elas são todas importantes, são todas igualmente indispensáveis, e é por igual inaceitável que qualquer delas de case com outro ou o diabo a sete.

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There's a crack in everything. That's how the light gets in

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Futuro da espécie

5.12.05

The survival of the wittiest.

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NADA

Eu no meu corpo como o tigre no seu bafo.
O mundo leva iguais a jaula e a casa.
Somos a vida que não é,
Fora não ser a morte.
Nem mesmo nada somos:
Estamos no que fomos
À espera do que importe.

Não se pode sair, e entrar já não:
Nada já deu entrada ao só nascido
Que é esse mesmo Nada:
Pelo que Nada não é nada
Mas é nada
Em Deus que tudo gera.
Eu na minha alma como o bafo no seu tigre.

[Vitorino Nemésio, «Nada», O Verbo e a Morte, em Antologia Poética, Asa, 2002, p. 89]

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A ÁRVORE DO SILÊNCIO

Se a nossa voz crescesse, onde era a árvore?
Em que pontas, a corola do silêncio?
Coração já cansado, és a raíz:
Uma ave te passe a outro país.

Coisas de terra são palavra:
Semeia o que calou.
Não faz sentido quem lavra
Se o não colhe do que amou.

Assim, sílaba e folha, porque não
Num só ramo levá-las
Com a graça e o redondo de uma mão?

(Tu não te calas? Tu não te calas?)


[Vitorino Nemésio, «A Árvore do Silêncio», Canto de Véspera, em Antologia Poética, Asa, 2002, p. 117]

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Craving

4.12.05

(ciciado)
Would you like to learn to fly?
(gritado)
Would you like to see me try?

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Post-war dream

Does anybody here remember Vera Lynn?

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Post-war

Post-war dream.

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Post

Post-war.

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